Apresentação
Nasci em Lucélia, Estado
de São Paulo. No dia 7 de setembro de 1943. Só que naquele tempo Lucélia não era
uma cidade (município). Não era nem mesmo um Distrito de Paz. Como diz o autor
desconhecido do artigo publicado em 1942 no Correio Paulistano, transcrito neste
site, Lucélia, quando nasci, "do ponto de vista administrativo não [era] nada":
era apenas uma "vila rural", um povoado, um agrupamento de gente, um
"patrimônio", como se dizia então. Pertencia, em sua maior parte, a Balisa. Mas
Balisa, também, não era quase nada: era apenas um bairro -- mas já era Distrito
de Paz. Pelo jeito pertencia a Martinópolis (antiga José Theodoro), esta sim, já
uma real cidade ("do ponto de vista administrativo") naquela época.
Minha Certidão de Nascimento original, emitida logo depois de meu nascimento,
esclarece: "Nascido em Lucélia, Distrito de Balisa, Município de Martinópolis,
Comarca de Presidente Prudente". Faltou mencionar, como esclarece o artigo
transcrito adiante, Valparaíso e Guararapes...
Há pouco tempo (em 2003), quando visitei Lucélia (pela primeira vez, desde que
saí de lá, com menos de um ano, em 1944), fui ao Cartório do Registro Civil da
cidade (agora sem dúvida uma cidade, e, portanto, alguma coisa, "do ponto de
vista adminsitrativo") e lá pedi -- e, maravilha, obtive! -- uma segunda via de
minha Certidão de Nascimento. Nenhuma referência agora a Balisa, a Martinópolis,
a Presidente Prudente. Só se faz referência a Lucélia, mesmo, hoje município e
comarca.
E não há, no livro de
registros, que fiz questão de ver e fotografiar, nenhuma referência, nas
margens, aos meus dois casamentos (e ao meu divórcio, no primeiro casamento),
que deveriam estar devidamente averbados lá!!! Segundo o Cartório de Registro
Civil de minha terra natal sou solteríssimo da silva. Só o bom senso me impede
de fugir para um outro estado e me casar de novo, pela terceira vez... Se o
cartório do novo casamento fizesse o que os outros não fizeram, e mandasse
averbar o casamento no Cartório de Lucélia, este o faria, sem problemas. (Mas
não será preciso. O segundo casamento, dizem os entendidos, é a vitória da
esperança sobre a experiência. Já o terceiro!!! Esse não seria vitória de nada,
a não ser, talvez, do sentimento, ou da tesão, sobre a razão...)
Essa bagunça administrativa, o fato de que nasci em uma "terra de ninguém", como
diz o artigo publicado em 1942 no Correio Paulistano, talvez explique o meu
liberalismo radical, quase anárquico. Se nasci em uma "terra de ninguém", que,
"do ponto de vista administrativo", não era nada, e consegui sobreviver, por que
precisamos de governo? Ou, pelo menos, de muito governo? Melhor é o governo que
menos governa, já dizia Thomas Jefferson (nascido, se bem me lembro, em 1743,
duzentos anos antes de mim).
Transcrevo, inicialmente, aqui no site, três matérias, todas encontradas na
Internet. A primeira, de autoria de Marcos Antonio Vazniac, jornalista de
Lucélia; a segunda, de autoria de José Carlos Daltozo, jornalista de
Martinópolis, com o título "Um Distrito Chamado Balisa"; e a terceira, de autor
desconhecido, é um artigo publicado, com o título "Povoado de Lucélia - Terra de
Ninguém", no Correio Paulistano de 11 de março de 1942 (18 meses antes do meu
nascimento, e que foi encaminhado para o site "Nossa Lucélia" por Ralph Mennucci
Giesbrecht. As três matérias estão todas na página
http://www.geocities.com/nossalucelia/1942.html do site "Nossa Lucélia". O
texto de Marcos Antonio Vazniac serve de introdução aos outros dois. Dou,
portanto, o devido crédito aos responsáveis pelo site "Nossa Lucélia" pelo
material transcrito.
Balisa, como afirma José Carlos Daltozo, pelo jeito sumiu não só de minha nova
Certidão de Nascimento, mas até mesmo do mapa: simplesmente desapareceu da face
da Terra. Quem sabe tenha deixado saudade em alguém.
Ouvi, quando estive em Lucélia, que o nome "Balisa" vinha do fato de que naquele lugar houve uma tentativa de demarcar as terras, e os habitantes do local, todos "posseiros" (grileiros?), simplesmente jogaram as "balisas" de demarcação no rio... Donde o nome.
No caso de Lucélia, o povoado foi criado em 1939, segundo me informa, por e-mail, José Carlos Daltozo, pelo Dr. Luiz Ferraz de Mesquita, que lhe deu o nome de Lucélia, que era a junção de seu nome -- Luiz -- com o de sua esposa -- Cecília...
As perspectivas de crescimento da "vila rural" que o autor do artigo no
Correio Paulistano descortinou não deram em nada. Mas, pelo menos, Lucélia não
teve o destino de Balisa: não sumiu do mapa. Continua lá, à beira da estrada que
vai de Marília para Dracena. E tem até Igreja Universal do Reino de Deus na
entrada. A população, porém, não chega a 20 mil "almas": 18.316 habitantes,
sendo 9.472 homens e 8.844 mulheres, segundo o Censo de 2000.
Apesar de o artigo de José Carlos Daltozo afirmar que Lucélia foi colonizada a
partir de 1927 e o povoado ter fundado em 1939, Lucélia só se
tornou município depois de eu ter nascido. Esse fato é de certo modo confirmado pelo
artigo do Correio Paulistano, que afirma que em 1942 -- ano em que o artigo foi
publicado -- Lucélia não era um município, ainda, só tendo condições de
vir a ser "em fins de 1943". Pelo jeito a burocracia complicou a vida do
patrimônio que administrativamente não era nada por mais um tempo, ainda, porque
pelo que sei não foi nem "em fins de 1943" que Lucélia se tornou um município.
Em e-mail José Carlos Daltozo me informa que Lucélia só se "emancipou"
(tornando-se distrito de paz, município e comarca ao mesmo tempo) em 1944. Eis o
que informa José Carlos Daltozo: "Através do Decreto 14.334, de 30.11.1944,
Lucélia se tornou Distrito de Paz, Município e Comarca simultâneamente (um caso
raríssimo, senão único, no Brasil). Seu território englobou parte do município
de Martinópolis, desde o Rio do Peixe (Balisa deixou de ser distrito de
Martinópolis e se tornou um simples bairro rural de Lucélia) e também englobou
parte dos territórios de Valparaíso, Guararapes, Presidente Prudente, Presidente
Venceslau e outros". Agradeço ao José Carlos Daltozo a gentileza dessas
infomações. Pelo que se vê, as posições se inverteram: Lucélia era um bairro de
Balisa; em 1944 foi Balisa que virou um bairro de Lucélia...
Deixo aqui registrados esses fatos para que, se alguém os ler, e souber mais do
que eu, possa, tendo a gentileza, me informar...
Eduardo O C Chaves
eduardo@chaves.com.br
Salto, 10 de maio de 2006