Povoado de Lucélia - Terra de Ninguém
Autor Desconhecido - Publicado no Correio Paulistano de 11/03/1942
Todos nós temos a impressão de que a era de criação das cidades espetaculares, das cidades que brotam do dia para a noite, como se as tocasse a varinha mágica da iniciativa particular, já passou. Os casos típicos de Marília e Presidente Prudente -- originada esta de um vagão de estrada de ferro, que servia de posto telegráfico e que já possuía oitocentas casas quando lhe deram o primeiro escrivão de paz, ao mesmo tempo que o primeiro prefeito; enquanto Marília crescia, sistematicamente, de dois mil habitantes por ano, vindo a ter na sede 24 mil almas doze anos depois de nascida -- esses casos, dizíamos, parece que já se não poderia reproduzir com facilidade.
É engano, porém. São Paulo continua a ser a mesma terra das surpresas de sempre. E como ainda possui duas largas faixas de zona pioneira, a primeira entre o Rio Grande e o Tietê, na qual se está processando o avançamento da Estrada de Ferro de Araraquara, e a segunda, entre o Aguapeí e o rio do Peixe, em que a Companhia Paulista está realizando seu prolongamento para além de Marília, é nesses territórios que vêm surgindo as repetições daqueles fenômenos.
O noticiário dos jornais se refere a miúdo a uma povoação de Brasilândia que está em formação no município de Tanabi, para além do ribeirão Marinheiro, cerca de cem quilômetros além de Rio Preto, localidade que já possui cerca de duzentas casas, embora não passe, a rigor, de um bairro rural.
O caso mais interessante, entretanto, é Lucélia. Logo depois de criado o distrito de paz de Balisa, no município de Martinópolis, que acaba de ser desmembrado de Regente Feijó, na Alta Sorocabana, a povoação daquela vila começou a mudar-se para um ponto situado no alto do espigão Peixe-Aguapeí e distante de Balisa cerca de duas léguas. O aglomerado cresceu rapidamente em prazo muito curto e dentro de pouco, sob a denominação de Lucélia, paralisou completamente o surto de Balisa e se impôs como o núcleo de uma grande cidade futura. Hoje Lucélia, que do ponto de vista administrativo não é nada, pois não term nem mesmo cartório de paz e registro civil, possui melhoramentos e requisitos que faltam em cidades bem mais antigas.
A dificuldade para pôr ordem na vida daquele povoado provem do fato de que a cidade -- chamêmo-la assim -- não pertence a ninguém. Foi construída de tal forma que seu perímetro está compreendido dentro de três municípios e de três comarcas diferentes. Já dissemos que fica sobre o espigão. O lado do sul, o território é de Martinópolis, comarca de Presidente Prudente. Do lado norte, as coisas complicam-se ainda mais: o povoado é dividido pela conhecida reta do governo, que vai ao Salto de Carlos Botelho, no rio Aguapeí, e nessas condições a zona de leste é do município de Valparaíso, comarca do mesmo nome, e a zona de oeste é do município de Guararapes, comarca de Araçatuba. E Lucélia fica a cerca de 60 quilômetros tanto de Valparaíso como de Martinópolis como de Tupã, que é hoje a ponto dos trilhos da Companhia Paulista. O remédio, pois, seria dar autonomia municipal ao novo povoado. Mas isto, de acordo com a lei federal, só poderá acontecer em fins de 1943. E até lá Lucélia terá de esperar como simples bairro.